terça-feira, 26 de junho de 2012

Indócil. O Torvelinho

Esvaziei-me de mim. Ou de algo que, por tão amado, constituía-me. A memória alucinada projeta o seu ter-sido sobre o eterno hoje dos dias e afoga o presente em nostalgia açucarada e espessa.

A travessia da separação é um nado em cãibras dentro do mel de quanto se amou para a outra margem, aonde o outro já não está. O mel não se deixa fender tão docilmente quanto a água. Tudo nele é lento. Também na dor. E coagula em favos, que são do mel a violência, os seus rochedos.

Não é por serem doces que são menos capazes de estraçalhar ou ferir. Quando a torrente me joga de encontro aos favos, o coração arrebenta. É mais amargo sofrer de dentro da doçura.

Os diabéticos cicatrizam mal e sofrem a violência desproporcional das amputações a partir do que, a princípio, se apresentava como inofensivo arranhão. Donde concluo que nenhum arranhão na represa do pacto amoroso é inofensivo. É que, de ordinário, subestimamos a força dos arrastos.









6 comentários:

  1. Por onde começo? Tirando este macacão, estas luvas, estas botas e estas máscaras que já não me servem para nada... Eu que já perdi a conta de quantas vezes fui picada. O zunido ensurdecedor que vem desta caixa não me incomoda. Minha alma já está anestesiada. O que sei de ti, abelha-rainha, por força do afastamento, às vezes esqueço. Hoje não vou espiar-te pelas grades, como faço quase sempre. Quero que me veja frente a frente. Tenho nas mãos apenas este formão de apicultora, com que penso colher o mel nesta colmeia armazenado. Deixei as facas e os garfos, porque hoje, é com os dedos que vou destampar os alvéolos dos favos. Permita-me chegar mais perto desta fonte de néctar, não posso evitar prová-lo. Tem um gosto familiar, sei que me entende. É amargo só ter lembranças doces. Passei os últimos anos com uma pilha de papéis em branco tentando adivinhar os contornos daqueles intermináveis dedos de anjo. Recusava-me a enfrentar aqueles olhos sempre tristes. Então escolhi as mãos, porque elas são o que o define. Lembro que cheguei a desenhar alianças com mil centímetros de diâmetro. Mas nenhuma delas era o tamanho.
    Acalma teu peito. Todo mel puro tende a se cristalizar com o tempo. Viver é isso mesmo. É também enxergar a impossibilidade do amor, apesar de e-terno.

    ResponderExcluir
  2. Anteontem estive aqui, estava com saudades e me deu uma vontade danada de ter os teus versos bem pertinho dos meus. Volto hoje e encontro um aceno, ainda triste, mas corajoso, de quem conseguiu, a duras penas, juntar as forças, chegar ao caroço, depois de se esvaziar.

    Sim, Roberta, "a travessia da separação é um nado em cãibras". Dói tamanho esforço... E nunca sabemos ao certo quando conseguiremos chegar do outro lado, onde aquele que dividia o passo e o espaço não está. Contudo, ainda que doa atravessar esse rio que corre dentro de nós, em um instante de distração - como uma piscadela -, quase sem querer, percebemos que conseguimos chegar. E as lembranças, ainda que continuem doces, se transformam em algo menos dolorido. As cicatrizes fecham viram marcas e só. Eu sei. Acredita em mim?

    Melhor é ter o que é bom para lembrar, de vez em quando, ainda que doa, do que de não ter boas lembranças. Eu não as tenho e isso dói.

    Eu sei que você vai conseguir... E lembre-se: conseguir dizer já é um passo. Talvez o mais difícil, o mais doloroso, mas o primeiro.

    Tudo se ajeita. Confia no tempo. Lembra que você e ele já estão quites?

    Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Não viveria uma vida ausente de doçura. Minha família tem um histórico imenso de diabéticos.

    ResponderExcluir
  4. Lembra do iodo que passastes sobre as minhas feridas? Cada gota era feita de palavras. Não de silêncios. Os silêncios abrem fendas profundas, que demoram a cicatrizar. Aconchego você em cada letra feita desse antídoto de palavras. Bebe tudo. E deixa jorrar o excesso. Deixa o ruído nos tomar a todos. Que findo é o tempo da espera e do mutismo. Vem, que somos todos teus. Nos dá as tuas mãos, que longa é a linha da tua vida. Eu consegui, lembra? Você também vai, porque grande é o amor que nos une.

    ResponderExcluir
  5. Estende a mão. Confia no movimento que é verdade por dentro. Que é ação por fora. Acima de tudo, confia que o tempo é sábio e está do lado teu.

    Na travessia também se constrói pontes. Arquiteta-se janelas para um novo futuro. O tempo vai te ajudar a ver através do vidro, a enxergar o espelho e o que há de transcendente no ser espelhado.

    ResponderExcluir
  6. Eu estou absorta diante de tanta beleza e de tanto sofrimento derramado nas palavras que nao fogem jamais.Eu sinto muito. Eu estou perto. Eu estou aqui...

    ResponderExcluir