segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O ENCAIXE DA ESTRELA

O aprendizado das formas é talvez um dos mais fundamentais em nosso humano repertório de conhecimentos. Toda vez que tento adivinhar pelo tato as chaves da casa na desordem da bolsa, acesso inconscientemente o brinquedo de poliedros coloridos da infância. Havia que se encaixar a estrela na ausência da estrela, donde mais tarde concluí que nenhuma forma se prestava a preencher o vazio da outra.
O avô foi das primeiras formas de encaixe que aprendi. A barriga redonda provia colo ergonômico, aliciador ao sono, embora sobrasse sempre pouco tempo para demoras de contato, a casa sempre tumultuada de gente. Dera nisso a difusão de suas quinze sementes: uma safra abarrotada de risadas de netos.
Na casa do avô todos os cômodos eram permitidos, salas-de-ser e de estar. Como desconfio que era a própria alma descompartimentada do patriarca. Mais do que um homem do campo, o avô era campo.
À falta de braços para abraçar toda a gente, o avô engendrou a invenção do olhar, que dizia coisas nítidas como palavras. A ele, portanto, devo também a primeira vivência dessa experiência fundamental nas interações de afeto: a cumplicidade. Que é a linguagem do invisível dentro do discurso do óbvio. A criptografia do encanto. Quando nos cutucava a moleira com a britadeira dos dedos, os olhos sorriam-lhe delatores da mão agilmente afastada. Sempre queria ser "pego" o avô, facilitava os flagrantes. E seu mistério nem por isso se desfazia.
Outro tesouro que guardo dele foi quando se recusou a ouvir a canção da Tapuia na versão esganiçada das netas, que lhe prestavam – riqueza nossa! – companhia no dia da cirurgia da avó. “Ah, essa música não... Essa só presta na voz da Maria”. E assim revelava-nos o grande truque da longevidade de seu casamento de ouro: cultivar as pequenas ternuras, como uma falta doce dentro do ter, que nos belisca da comovente impermanência do outro e de seu brilho. A partir dali eu desconfiava que, reversamente, o amor morria de inanição quando se perdia a capacidade de se enternecer.
O avô partiu pródigo de doçuras. Sim, o avô era também um gosto e um tempero. De modo que a saudade dele ainda hoje se faz em mim como uma espécie úmida de meio-sorriso sob o leque dos cílios. É minha contra-senha secreta ao aceno de sua memória. Dentro de mim, na desordem de mim, reconheço ainda as chaves dos saberes que me legou. Abrem-me portas por dentro. Permitem-me avançar no caminho.
Hoje eu conto o avô para revivê-lo. Por não saber amá-lo sem entrega, o que vem a ser modelo seu. Essas palavras são a minha colheita desmedida de pimentas.      

15 comentários:

  1. Desconfio que o avô continua a cutucar as moleiras invisivelmente, soprandos através dos dedos palavras de encantamento que você, generosamente (herança dele também?), divide com seus leitores.

    Obrigada pela viagem. Ana

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  2. Que saudades do meu vovô!!! Através desse texto belíssimo e ao mesmo tempo simples, me remeteu à minha infância...essas são pimentas saborosas!!

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  3. É o que temos de melhor na vida, lembranças que nos remetem a boa índole e ao atual conhecimento.

    Abraço...lindo texto

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  4. Nesta carruagem invisível do presente, em que pontua questões sobre passado e futuro, sempre viajo comodamente no banco de trás. De onde escuto a sua voz de veludo e desfruto do ar fresco de suas experiências. Contudo, nunca consegui passar por ti alheia à polêmica. Dela. Da entrega. Gosto de reparar nesta coisa que chamam de EXISTÊNCIA, ou, se preferir, O ENCAIXE DA ESTRELA.

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  5. Há lembranças que nos alimentam toda a vida ! Abençoadas elas sejam!
    beijo
    Graça

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  6. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Azues. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  7. Roberta,

    Aqui meu coração sorriu quando encontrou o conceito de entrega. Entregar-se ao outro é permitir que lhe abram portas. Entregar-se ao outro é lhe oferecer as chaves, também. O amor entregue é assim: disponível e generoso, feito o avô - que mesmo ausente é a lembrança que lhe encaixa. E lhe encaixa na perfeição da palavra.

    Lindo e delicado. Perfeito e irretocável, como sempre é, Roberta! Mas esse foi surpresa boa...


    Perdão por me ausentar além do que pretendia. Saí um pouco, embora tenha publicado de vez em quando...

    Amo tudo aqui.

    Beijos,

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  8. Eu tive um avô assim. Tenho ainda - só não sei como voltar a ser sua neta. Que dificuldade enorme essa, da vivência.

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  9. Oi Roberta!

    Quanta riqueza, que saudade gostava de se sentir, parabéns pra você e a seu avô...

    abçs,
    Paulo.

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  10. Vou entrar na estatística do seu blog de ter tido avôs e ainda ter avós incríveis. De tanto que foi o meu paterno com que pouco convivi, fiz uma breve homenagem que segue no blog. Um vídeo, ensaio e brincadeira com sua vida em verdades que lhe são alheias. Gostei. Abs.

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  11. E esse legado dele para ti, passado assim adiante na forma das palavras lançadas na rede, vai se multiplicando e eternizando. Aprendi muito sobre enternecer contigo minha irmã querida!

    Saudades salgadas!
    Elis

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  12. Eu leio e releio os seus textos mil vezes. Sem cansar. Minha autora de cabeceira.

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  13. este é meu segredo:
    elas me fazem chorar
    as flores de gérberas...

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  14. Nostalgie.

    Avô tem gosto de infância.

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