domingo, 3 de julho de 2011

Germiniscências

Texto postado originalmente no blog Para eu Parar de me Doer

Saiu da loja de perfumes, aproximando suavemente o pulso do nariz, para sentir-lhe a fragrância. A mão pendia-lhe oblíqua, com as costas voltadas para fora, como na pausa coreográfica de uma bailarina, revestindo de elegância o distraído gesto. Sim, havia qualquer coisa nela que dançava! Seu caminhar tinha a leveza volante de um invisível voil, vinham e iam as ancas em balanço pendular, cadenciadas.

Seria a mulher a rosa que se cheira? - brincou-lhe o pensamento a propósito da estampa floral que vestia. Tudo nela exalava um aroma frutado de flor fecunda, doce, doce, olhos dulcíssimos, rebrilhando úmidos como o vértice de um hibisco. Apertou o ventre com as mãos em concha, como a proteger um enigma e atravessou a rua, o sinal ainda aberto aos carros, em atitude desafiadora, só para vê-los curvarem-se sob o comando de uma súbita frenagem à altivez da vida.

Gostou da idéia de que as coisas em volta dela, a partir de então, desacelerassem. Havia mesmo mais silêncio, como quando cai a neve e suprime-se o barulho dos passos.

Deixou-se tomar pela visão íntima de uma paisagem toda branca, a que associava, paradoxalmente, um calor de Glühwein, bebido em pequenos goles - o vinho que se serve quente e condimentado nas festividades teutônicas do Advento. E lá se se iam muitos anos desde que voltara de lá. 
 
A invocação inebriante do cheiro macerado de cravo, uva e anis, levou-a a fechar os olhos, inalando gulosamente o ar até o limite dos pulmões, retendo um pouco a respiração, como a perscrutar vestígios das notas exóticas do aroma dentro de si.

Levada pela correnteza das associações sinestésicas, sintetizava em sinapses rápidas experiências diversas, sensoriais ou não, se resultantes do intelecto.

E tinha ainda a sugestividade da palavra “Advento”, cujo conceito fulminara-lhe sob uma conotação inteiramente nova...

Os parênteses se abriam em sua mente com o poder de multiplicação de bonequinhas russas, as memórias saindo umas de dentro das outras, em uma infinita cadeia remissiva, um fio contínuo de histórias que era, no fim das contas, o que lhe arrematava a tessitura do ser.

Munia-se, inconscientemente, de referências, tantas quantas possíveis, sobre o processo de viver: suas sensações, suas razões, suas implicações, seu sentido.

Mais do que nunca precisava entrar em contato com a natureza das coisas, sistematizar o precário saber, como o pássaro laborioso a construir com fragmentos a dimensão imaterial do ninho, pois suspeitava estar incumbida de transmitir, mais do que a realidade do corpo ao que se lhe formava dentro, um modo de estar no mundo, de relacionar-se com ele.

...Os que julgam que a criação é forma apenas de forjar a criatura, desconhecem a carga transformadora do ato de criar, donde o próprio criador se origina. Origens...Origem. A palavra escancarou-se como a boca de uma baleia, tragando-a para dentro. 
 
A lucidez nela aguçou as retinas, tentando recuperar a nitidez dos contornos ao adentrar o escuro mistério.

17 comentários:

  1. Eba, a primeira a comentar, que honra!

    Eu nunca tomei esse vinho chique! =/

    Quero confessar totalmente sem reservas, Rô Mendes que li seu texto com a respiração absolutamente suspensa, voce descreveu duma forma tão encantadora que me senti aspirando o perfume suave de flores da moça do caminhar elegante acompanhando com os olhos a cadencia de suas ancas [ui adorei isso], e vê-la ainda atravessando a rua branca de neve. Incrivel como inúmeros pensamentos nos invadem em questão de segundos ou um simples caminhar. Dos mais disparatados ou até filosóficos, como a moça do seu texto.

    Voce fantastica como sempre.

    Um beijo de carinho e abraço apertado.

    ps: tem email!

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  2. Uma honra comentar depois da minha amiga Vã, além do prazer de sempre que é ler um texto seu.
    Melhor ainda ter das duas dois momentos de um acontecimento sempre emblemático, por mais trivial que seja. Quantas estrelas nascentes teriam o valor de uma vida humana que se está gerando? Uma mulher como a que descreve além de luz tem o perfume. E eu não tenho mais inveja dos astrônomos.

    Beijo

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  3. Esse cenário, essas cores, esses sabores mexem com o imaginário do leitor de forma surreal! Ler os seus textos é sempre um privilégio. E o mais fantástico é a surpresa por trás deles.

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  4. Um conto de encanto e magia repleto de simbolismos, lembrei da frase "Ela diz que não era frio, nem loucura, nem desejo. Era medo. Medo de te perder.” do livro O Perfumista de Joaquim Mestre

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  5. Roberta,

    Cada palavra sua desperta em mim uma sensação... E um desejo, talvez o mesmo da sua personagem, de efetivamente entrar em contato com as coisas todas; sentir a essência íntima dos acontecimentos. Talvez, para mim, esse seja o único conceito de verdade: O desejo de sentir a essência íntima das coisas e descobri a verdade no meio delas.

    Uma descrição tão perfeita, que a personagem tomou forma diante de mim. Senti seu perfume, suas sensações... Tudo tão perfeito que, confesso ter hesitado em comentar, por não saber ao certo o que dizer.

    Mais um texto irretocável.

    Beijos, querida

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  6. Roberta,

    Retificando: O desejo de sentir a essência íntima das coisas e descobrir a verdade no meio delas.

    Perdão. O "R" foi engolido pela emoção...

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  7. Entro no shopping e, toda vez, passo por uma loja de perfumes.
    É lei.
    Saio de lá cheirando a rosas fecundas, algo frutal. Saio de lá no primeiro parágrafo.
    Beijos.

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  8. Um texto onde as palavras não estão em fuga...pelo contrário, há uma simbiose perfeita entre elas, na sua cadência, nas suas alegorias, no seu perfume! Um advento em flor anunciado e absorvido como o vinho forte das grandes festas.
    Não tiraria uma única vírgula deste texto que li com o prazer com que se aspira o aroma de uma flor!
    PARABENS!
    Beijo
    Graça

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  9. Eis-me aqui. Lambendo até as tampas da sua profundidade. E sem nunca saciar-me.

    Só não tenho o mesmo faro de antes.

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  10. Minha vez de entupir o string de comentários com a respiração do silêncio. Se calar agora as palavras esfarinhar-se-ão em sopros de sombra inclinados. Ao afastar-se de si mesmo, não o faça por muito tempo. Daqui, do silêncio insepulto de seus lábios, eu escuto o seu grito. Em nome do pai, materialize-o.


    Talvez isso ajude a orquestrá-lo.
    http://www.youtube.com/watch?v=zZWEsLpm6wM&feature=related

    Roubei uma vela da catedral esta madrugada. Pegue-a. Deve mantê-la acesa, se preciso for, a noite inteira. É para afugentar os ratos que estão roendo-lhe os dedos.

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  11. O que lhe proporcionara o sonho, o que estava por vir ou o que ela sonhava encontrar...

    Adorei o mistério!

    Abraços.

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  12. Roberta,

    Mais um texto soberano, que li com muito prazer, depois de longa ausência.
    As sensações, que são dos mais belos pretextos de escrita.

    Um beijinho,

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  13. Gostei bastante deste teu conto. Parabéns. E adoro a imagem do cabeçalho do blogue é verdade :) Beijinho Voltarei de certeza

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  14. Gostei bastante do Blog.
    Muito interessante !

    É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
    http://bolgdoano.blogspot.com/

    Muito Obrigada, desde já !

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  15. Gostei muito de passar novamente por aqui e de dar com um conto muito bem construído em termos de simbolismo. Isso me atrai. Abraço

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  16. Segurando nas mãos duas velas que bruxuleavam exaustas, Pierrot os surpreendeu deslizando-se rapidamente para os fundos da mansarda, supondo por extrapolação da ingenuidade, não fosse possível que das mãos do destino pudessem ser desferidos golpes ainda piores. Aconteceu no exato momento em que a boca antecedeu o beijo. Em meio às folhagens ondulantes dos arvoredos, Colombina permaneceu imóvel enquanto os lábios de Arlequim a contornavam em silêncio. Seus olhos tinham um brilho de Soleil, mas sem ser Cirque. Arlequim, um desejo. Colombina, o impossível. E Pierrot, que embora sangrasse, naquele momento, sequer havia existido.



    OBS.:Ausência de pulso, desfibriladores, compressões toráxicas, desfiles de metais ponteagudos. Homens de branco se movendo. E daqui, do fundo da minha inconsciência o coração, que insuportavelmente, continua batendo.


    P.S. sempre seu, Pierrot.

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