quarta-feira, 9 de março de 2011

A Visita

Texto publicado na coluna quinzenal da autora, intitulada "Desde os Olhos", no site TremaLiteratura


Autorizado pela mão da mãe que o tranquilizava quanto a ser amor seguro, eis que o menino, pouco a pouco, foi se chegando, farejando a tia com os cílios. Suas reservas eram proporcionais à sua pequena estatura de ano e meio. Mal se moveram os ponteiros, o menino era já um leque de abraços. O rosto da tia se arejava de sorrisos enquanto esvaziava em alta compressão o pente de beijos que lhe pendia da metralhadora dos lábios.
Desconhecedor de viagens e da noção de longe e perto, a tia era para ele uma fantástica aparição. Incrível que da cartola da casa surgisse pela manhã, depois de descartada a incômoda secreção dos olhos, pessoa nova pra cuidar da gente!
Embora até então estranha, a tia era cheia de enternecida atenção para consigo, atenção esta que era ao menininho coisa muito familiar. Lembrava colo de mãe e consolava para quase tudo, menos queda, quando machucava de verdade, e o sono escuro da noite. Os olhos da tia eram bons para confirmar situações de “pode” e “cuidado!” e encorajamentos de “isso mesmo!” e “muito bem!”, sempre que o indicador pousava certeiro sobre a posição do nariz, sobre cujo incerto paradeiro muito se perguntava. Cadê o nariz do neném?  
 Nisso de ser perguntado sobre o cadê de coisas e pessoas, o menino sinalizou reconhecimento da tia. De primeiro, concedia-lhe a direção cúmplice dos olhos. Depois a mira convicta do indicador. A tia era pessoa presente, habitante de seu aqui-agora. A tia era. A tia estava. Na linguagem do menino, os verbos coincidiam pelo intransitivo da realidade apreendida.
Experimentou chamá-la. O nome da tia ecoou sonoro, desencadeando “Ôôôôô”s e estalos pipoucantes de beijos de artifício. O diálogo então consistia nisso de chamar pela tia e ela, infalivelmente, responder. De cada vez, com redobrada doçura. O nome era, portanto, a substantivação da concretude de haver tia e do alcance de seu abraço. Como a palavra "água" tinha o efeito benfazejo e imediato de fazer minar mamadeiras no deserto das mais intempestivas sedes.
Mas eis que um dia, sem que as lágrimas que marejavam o olhar da tia fossem tomadas por aviso, o menino acordou de um estranho passeio ao aeroporto, de volta à casa de muitos cômodos. Tomou a rota daquele quarto raro, que só existia de vez em quando - o quarto de visitas - aonde a tia acordara dias a fio aos proclames do nome.
Chamou sob os travesseiros. Tapou e destapou reiteradas vezes o esconderijo dos olhos. Chamou pelos corredores, pela escada e a tia não acorreu. Ficou o menino choroso com o nome quebrado nos lábios. Por que é que não funciona?
O chamado, porém, atravessava a distância e desassossegava o coração da tia, que ficou inútil, sem colo e consolo, por não poder embalá-lo nos braços. Como dizer em língua que o menino entendesse que o que não está presente ainda assim existe e nos ama de amor cheiroso e real? No tempo do menino não existe o “até já”. Somente agora é tempo em que se fie. Se pelo menos pudesse dar corpo à saudade...
O menino, que ainda não entendia de abstrações, tratou de calar o nome da tia, como se desaprende aos poucos um jogo que já não se joga. Guardou-o junto às quinquilharias desmanteladas de suas afeições: uma maraca que já não chacoalha, uma chupeta sem borracha, o tiptop preferido, amaciado pelo muito uso, de onde agora lhe escapa o dedão.   

20 comentários:

  1. Trouxe um charuto de tabaco holandês para fumarmos juntas. Não trague, apenas saboreie.

    Do que mesmo estávamos falando?
    Ah sim, de dar corpo a saudade... Cientificamente a fumaça é uma nuvem betuminosa de alcatrão forjada da combustão de elementos químicos que flutuam ao sabor do vento. No geral saem das coisas que estão pegando fogo. Daquelas que queimam. A questão é...o que fazer com essa fumaceira toda, que como a saudade, não raras vezes nos intoxica e nos confina neste círculo concêntrico que é a vida, que sempre se inicia exatamente aonde termina: num teatro de cinzas. De modo que, concluindo, esses vapores mágicos reduzem a visibilidade, mas em contrapartida, acelereram as batidas cardíacas. Roberta, a saudade tem forma, cheiro e nome. Está em tudo aquilo que nos embaça a vista.Coff/Coff/Coff...E por falar em teatro, quem abaixou as cortinas? Não fosse pela(asfixia)que me causou este texto, te juro que eu pararia. Eu não estava pronta para saber a verdade. Não ainda.


    Café? Está quente como o inferno. Ele vai nos ajudar a atravessar esta noite. Tome devagar para não queimar a língua.

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  2. me arrepiei lendo aqui.

    é que eu sei o que é a saudade de uma pequena em mim e de mim nela. tenho uma irmã de seis anos, que é o meu sol, o que de mais bonito já existiu na minha vida. quando me fui de perto dela, ela nem queria mais falar comigo ao telefone, dizia que eu a tinha abandonado. e chorávamos, ambas. agora ela entnde melhor, mas ainda choramos quando das despedidas, mesmo que a ausência não dure tantos dias.

    lindo texto.

    beijo, querida.

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  3. Roberta,

    Vim aqui retribuir a sua visita e fiquei! Fiquei porque estou muito feliz com o que encontrei aqui. Seu texto é lindo, assim como a inocência do menino. Jeito doce de dizer a saudade, viu? A minha saudade, àquela que você leu lá no meu Blog, não é assim... Ali descrevi a saudade da palavra que foi passear sem mim. A saudade que me deixou muda quando atravessei um momento de escassez poética. Aqui, sinto a saudade em si...

    Adorei o texto!

    Beijo

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  4. Olá passando para retribuir a visitinha, e agradecer pelo recado. Parabéns pelo seu trabalho desde. Desde já serei teu seguidor.]

    Abraços!

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  5. Texto lindo. Foi difícil sair do primeiro parágravo. Não por ser chato ou cansativo, nada disso, mas por ser tão encantador que o reli ao menos três vezes.

    Parabéns pelo blog.

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  6. A sua conexão com o amor familiar é o cordão umbilical, que te alimenta nessa tua gestação. De encher os olhos d'água...

    Amo você!

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  7. Roberta,

    Venho retribuir a visita e me deparo com tamanha doçura. Dessas saudades que fazem a gente calar o nome - num jeito de fazer sumir aquilo que faz doer. Mas não some. O amor não some fácil assim...

    Encantei-me aqui.

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  8. Ai meu Deus, que coisa mais linda de se ler! Espere um pouco que vou tentar te escrever um poema...já volto.

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  9. Pronto, aqui está um poema para vc que me emocionou.


    O amor seguro fareja olhares,
    O leque de abraços,
    E tudo o que dos lábios despenca.

    Tudo o que mais se quer,
    É sua fantástica aparição,
    O incerto paradeiro
    Do escuro da noite,
    Se esconde diante do amor.

    O encontro desmedido,
    É concedido pela cumplicidade
    Dos olhos e chega coincidindo com tudo.

    A rota do marejar de lágrimas,
    Encontrará o esconderijo dos olhos,
    Atravessará as distâncias
    Desassossegadas do coração,
    Para dizer que,
    Somente o agora contém
    O tempo que se fie.

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  10. Roberta,
    O meu nome é Elisabete e escrevo no blogue Didascália. Quero, antes de tudo, agradecer a gentileza das suas visitas.
    Gostei muito de ler este seu texto. Há trechos belíssimos: "Como dizer em língua que o menino entendesse que o que não está presente ainda assim existe e nos ama de amor cheiroso e real?".
    A saudade é um luto. Mas o amor ressuscita.
    Um beijinho

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  11. Roberta,

    Texto de sensibilidades e sentimentos que não podem ser explicados...são apenas explicitamente expostos no coração da alma de quem ler.
    Muito bom conhecer seu espaço onde a palavra é o verbo-ação da delicadeza.
    Beijos,
    Genny

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  12. essa lembrança ele guarda e vai estar sempre dentro dele, um dia ele resgata.

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  13. Cara Roberta!
    Belíssima descoberta do teu blog e de tuas palavras!
    Sinais e sintomas preenchendo o cheio do vazio!
    Meus sinceros parabéns!!!

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  14. Desde já um obrigado por ter passado no meu pequeno espaço da blogosfera.
    É sempre bom saber que acompanham o nosso trabalho. Sim, como disse, irei tentar tirar proveito desta minha participação no Ponto de Interrogação numa Lâmpada.

    Em breve serão colocados dois novos textos, um no meu blog, "O Resto é Silêncio", e outro no Ponto de Interrogação numa Lâmpada.

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  15. Tão familiar que me soa terno. É terno.

    Moça Roberta, te enviei um email.

    Beijo

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  16. Oi! Que bacana seu blog, e olha q eu encontrei ele ssim, á toa, zapeando na Rede. Tive uma sorte danada. Vc gostria de seguir o meu blog? Sou uma espécie de escritor em fase de teste e à cata de novos leitores.

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  17. Olá Roberta, como estás?

    Tal qual seu personagem, vejo encantamentos vários em parentes que possuo. Tenho uma tia parecida, metáfora de vivência pura.

    Abraços.

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  18. Olá Roberta! Encontrei uma escritora de alto calibre. Gosto do estilo! Estou seguindo a partir de agora.
    Felicidades
    jorge

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  19. Fiquei enternecida, bateu saudade do meu menino,
    assim, nessa fase em que uma amiga me falou ser
    ele um menino "seguro" porque se afastara muito de mim, quando ela o levou para um passeio...
    Que belo texto,Roberta...tão real!
    Venho aqui, pela primeira vez e saio encantada.
    Eu volto, por segurança, já me instalei.
    Um abraço

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