quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Onde Ser

Enquanto abria a cortina com gestos bem dispostos, dois curtos trancos de cada lado, separando as folhas do tecido, cantava.

O la-la-ra-iá era um sorriso de boca inteira e, quando tomava fôlego, aspirava um pouco da poeira transparente e rebrilhosa que se desprendera do pano sóbrio, espécie de pirlimpimpim da manhã já alvorecida mágica e promissora.

Tinha posto não seu melhor vestido, mas o mais gracioso, o mais leve, o mais alvo, o mais próximo da nudez. Era assim que se sentia: trajada de nudez esvoaçante. Mas não, não pretendia sair. Queria muito mais explorar a própria casa, para onde se mudara há poucas semanas.

Trazia os pés descalços, atentos ao relevo do piso frio, esquadrinhando alegres os rejuntes da cerâmica cor de marfim, qual focinho perdigueiro em canteiro novo.Era raro estar em casa naquela hora da manhã, em que o sol incidia em cheio em sua janela. 

Não se possui verdadeiramente uma casa enquanto não se lhe conhece todas as nuances da claridade: em que recantos se escondem os raios mais atrevidos, como as paredes se comportam ao pôr do sol, se enrubescem ao beijo de despedida.

Outro dia estivera nublado. A casa era um navio na névoa e o mais indicado seria atravessá-la com um lampião levado à altura dos olhos. Um silêêêêncio... Oh, sim, a casa requeria travessias. E sabia entoar silêncios. Era, como diria sua avó, dessas que têm "lá dentro". A sala e os quartos separados por um corredor, em que a luz de uma extremidade esmorecia antes de chegar ao outro lado. Cruzá-lo era confiar no convite ofuscante do cômodo seguinte. Era, portanto, empreender minúsculos nascimentos e dar-se renovadamente à luz. 

Achava que todas essas informações relevantíssimas deveriam constar dos classificados. Não bastava o enxuto rol do número de peças, a metragem total, se tem garagem na escritura ou não. Mais do que isso, lhe interessarava sempre a dimensão da luz, a proporção que esta ocupava no ambiente.

Tinha um amigo com ótimo senso de orientação, que alugara um apartamento no Humaitá exclusivamente pela lua cheia que lhe pratearia o estar. Ficava à noite, milagrado, observando a tatugem enluarada do rendilhado dos cobogós varando a sala. Sua irmã, Ana, também decidiu-se por morar num loft, cuja ausência de paredes facilitava a mais ampla circulação da luz. Então porque ela não compraria uma casa por sua possibilidade de...de amarelo, como explicar? 

Era um condicionamento antigo, adquirido dos álbuns de figurinha da infância: as que tinham contorno dourado eram, de alguma forma, especiais. Parecia-lhe que a lembrança, assim como as figurinhas, contornava as memórias prediletas com um marcador reluzente, ao que convencionou chamar,de si para si, do fenômeno das memórias amarelas. Sendo a sensação amarela o sinônimo cromático do que lhe deixava feliz.

Mas, claro, não foi só por isso que se decidiu por aquela casa, dentre todas as outras. A casa não escolhe menos o morador do que este à casa. Há entre a propriedade e o pertencimento um enigma de Colombo: o que vem primeiro? E mesmo as duas palavras se irmanam, siamesamente plurívocas. Apropriamo-nos do que nos é próprio (natural)? Pertence-nos a casa ou lhe pertencemos nós?

Lembra-se ainda de quando o corretor abriu a porta, para lhe apresentar a casa. As lembranças do que nem vivera correram a saudar-lhe à entrada, dóceis como os cães ao dono que regressa. Viu seus filhos dispararem pelo corredor, chamando em eco: vem ver, mãe! Os filhos que ainda não tinha. Pediam-lhe a casa. O ninho. Desde então sua esperançosa doçura aconchegava o ventre sobre os vãos da casa, alcochoados de fiapos de sonhos trazidos ao bico pelo caminho. Emprestava às entranhas da casa o calor das próprias entranhas. Amalgamava-se à casa. A casa própria. Casa propícia. 

De pé, sobre sólidas fundações, era uma mulher contente, chocando.

8 comentários:

  1. Ao te ler,


    Senti-me como um galinha cochilando em paz em seu poleiro. Mas que um dia, lembrando-se de outrora bateu com a cabeça numa táboa. Desde então, tenho os pés estão no chão, mas a cabeça está sempre nas nuvens.


    Gosto da maneira como você se esparrama. Estou aprendendo com rios. A me deixar levar pela correnteza das águas sem temer a queda livre das cascatas.

    Te abraço com amor.

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  2. Quem acompanha a produção literária de Roberta Mendes, já está acostumado, à medida que se aprofunda a leitura, dobrar os joelhos, para, na hora do epílogo, ajoelhar-se diante da beleza da arte.

    Eu me ajoelho todas as vezes. E dessa vez, também tive febre, com a última frase.

    Obrigada Roberta, por nos revelar que a literatura genuína continua viva, dando-nos muitas páginas ainda pela frente.

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  3. Pois de hoje para adiante decreto que nos classificados digam, os que pretendem passar adiante morada, sobre a luz que perpassa a vida contida ali.

    Foi num dia iluminado que a sala da casa se abriu e me convidou suave a entrar e ver a copa sorrir amarelamente, enquanto o quarto menos brilhante convidava a acolhimento cochiloso. A cozinha, latifúndio pra quem vinha de quarto e sala, abria-se com clareza de brisa fresca. O segundo quarto, com vistas para um pedaço de céu, justificou não ser de luz ofuscante para não embaçar pensamentos, nem machucar os livros e instrumentos musicais que morariam lá. Examinando o quintal sem terra ouvi a casa sussurrando que, mesmo não sendo definitiva, se dedicaria a proteger ali os sonhos que ainda estavam em gestação sem que ninguém soubesse. Generosamente pediu as honras de ser o primeiro berço de tanto que era promissor.

    Somos todas gestantes preparadoras de ninhos, a continuar vibrando pela eternidade da continuação.

    Te amo amiga!

    Beijos,
    Elis

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  4. Nossa! Que delícia que é ler você! Muito obrigada pela visita, que me atraiu até essa maravilha de texto! Sigo e admiro, desde já! Beijos!

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  5. O blog é excelente , qualidade de
    texto ótima !!!!


    Parabéns.


    Bjo.

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  6. Estou adorando esse teu canto!

    Depois volto para comentar melhor!

    Um beijo.

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  7. É doce todo recomeçar! Desbravando metros como quem descobre um futuro logo alí.

    Fôlego. Todo tempo fôlego. Enviaste um tanto de vento novo para meus ares já envelhecidos de anos gêmeos. Pensei não ter mais os olhos tão frescos, mas te ler foi como espanar todos os cantos já vividos. Seu texto foi meu lampião a querosene!

    Te abraço

    ziris

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  8. Muito bonito, tem de se sentir leve, sentir a nudez de corpo e alma!

    Beijos..

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