segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sem Açúcar

Sábado, Porto Alegre. Almoço em restaurante de shopping. Uma e meia da tarde. Primeiro andar lotado. A alternativa era encarar o lance de escadas, que prometia vista para o Guaíba. 

Por toda parte, famílias, alguns casais. Ninguém almoçando sozinho. Como, aliás, deveria ser. Era um restaurante de estilo americano, desses que o garçom se apresenta pelo nome. Que será responsável por cuidar de nós. Gosto que cuidem de mim e me recosto, mais segura e relaxada, no espaldar da cadeira.

Ali, nada faltava. Uma economia de sobras. A bebida se renovava no copo antes de se estabelecer a sede. Nem precisava pedir. Tudo orquestrado para satisfações, de modo a dispensar os clientes do raciocínio da necessidade.

Na nossa mesa, éramos os filhos a dar conselho aos pais. O mato cresceu sobre seus atalhos. Eu dizia algo sobre as estruturas deverem servir ao sentido e não o sentido às estruturas. Em torno de nós, os assuntos eram diversos. Coisas do dia. Impressões sobre a moda. Referências desanimadas ao cinza do tempo. As vozes eram o enxame de sempre, alternando risadas, “fala, querido!”s ao celular, gírias locais.

Uma voz de mulher soou alto. Vai ver arregimentava um coro de parabéns para o aniversariante do dia. Mas bem que parecia um grito. E sem o concurso alegre das palmas festivas.

Seguiu-se um novo quase grito. E depois, inequívoco, um grito de socorro. Os cascos das cadeiras repisaram assustadiços o chão. Uma algazarra de talheres abandonados às pressas sobre a louça e um gemido entrecortado de criança.

─ Pelo amor de Deus! Ele está passando mal!

O homem caiu sobre a mesa, levando o tampo de arrasto, numa incongruência de cacos e cubos de gelo. Os que estávamos presentes permanecemos petrificados em nossas marcas, em desconfortável figuração.

─ Alguém chame um médico! Tem algum médico aqui? ─ desesperava-se a mulher.

A súplica se espalhava em rápido boca a boca. Uma seita inaugurada à falta de Deus. Até que, após repetir a invocação três ou quatro vezes, uma senhora se deu conta de que era médica ela mesma. Só agora o chamado percorrera os longos corredores do sentido, esse hospital vazio. A postura tentando inspirar a confiança de um jaleco, checava o pulso, a carótida, perguntava à que parecia ser a esposa como era o nome dele. Como é o nome dele? Como é o nome dele? Embora soubesse o nome de cor, a mulher parecia tentar decifrá-lo, aterrorizada, da inscrição de uma lápide. O homem não respirava.

Alguém se lembrou de levar a menina esperneante para a varanda, para poupá-la da cena. O que a mergulhou num angustiante cinema mudo. Via o pai inerte através da vidraça. Via a mãe agarrar pelo braço os que, a esta altura, tinham se acercado:

─ Meu marido está morto? Meu marido morreu?

Da varanda a menina lia os lábios da mãe sem detectar o sinal de interrogação e berrava bestializada contra o absurdo.

Ofereceram à menina água com açúcar. Uma mão desconhecida lhe afagava os cabelos. A menina cuspiu a mentira açucarada: “Está tudo bem”. Não era suficientemente pequena para acreditar. O pai não se movia. Uma fotografia feia, de olhos revirados. O branco dos olhos contrastando contra o rosto arroxeado.

Se não chorávamos todos de impotência e susto e horror era pela obrigação moral de fingir algum controle diante da menininha e sua dor descontrolada.

─ Ele ainda tem pulso!

Como se a afirmação afrouxasse o laço da morte, o próprio homem se contorceu de repente, puxando o ar num engasgo. Parecia tentar sentar-se a qualquer custo, arrancando o tronco do chão com violência. Aos poucos, voltava a si. A médica e uns bombeiros que por ali chegaram tentavam subjugá-lo, pediam-lhe calma. Que tudo já estava bem. O homem tinha o olhar transtornado dos que se olharam nos olhos da morte e viram o próprio reflexo sumir nas cavidades ocas. Levaram-no dali em cadeira de rodas. Sua mulher só então chorava francamente.

As pessoas, cabisbaixas, voltavam às suas mesas. Inseguras. Humilhadas. O vento gelado varava o salão e tremíamos de um outro frio, olhando atônitos os restos do almoço. Todos tínhamos ao prato o rato morto de Clarice Lispector. Sua verdade indigesta. O asco da precariedade estava servido.

A carne que ali se comesse seria um ato de canibalismo. Tudo era cru e extremamente perecível. Como nós. Que nos julgávamos seguros, cotidianos.

A realidade debochava de nós. Ouvíamos, sem ousar nos virar, sua risada de hiena em nosso encalço.

O garçom nos trouxe a conta, embrulhada num sorriso empalhado. Pagamos, mudos de medo. Porque, mesmo assim, o Cobrador virá bater à nossa porta. A qualquer momento.

E fomos depressa engolir o choro, um pingado e dois espressos num outro quiosque barulhento da praça de alimentação.

12 comentários:

  1. Eu leio os seus textos de joelho.

    Eu me preparo para ler você. Me ajeito no encosto da cadeira, como criança desajeitada ante a montanha russa.

    Porque cada ponto me provoca e vasculha, e descobre um pedaço de mim que eu não sabia que existia.

    Parabéns pela sua escrita magnífica.

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  2. O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

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  3. Se é possível a transposição das vivências, você a cumpriu. Logrou nos prender neste fio invisível em que não se diz a vida e a morte, vive-se. Ainda escuto o riso de hiena da realidade, zombando de nossos ares invulneráveis. O fio de navalha da precisão textual não corta o espanto, catalisa o assombro, a poeticidade. Concordo: é pra ler de joelho.
    Um beijo,

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  4. Existem mesmo algumas conveniências inconvenientes.
    Morrer em um restaurante é inadmissível.
    Gostei daqui, vou ler mais.

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  5. Vim pelas rabiolas de uma certa Pipa-indicação. Aquela que sempre acerta na mosca. Pedi ares frescos, ela, ao avistar tuas terras me soltou. E foi um tombo de pluma. Embora eu tenha lido mais de uma vez, não por alheamento, fiz tentando não me confundir aos assistentes em questão. A queda dura até agora, onde quer que seja que eu esteja agora. Preferi ser atingida em cheio!

    Amei, voltarei! Parabéns pela habilidade.

    Te beijo, te abraço!


    z i r i s

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  6. É sempre uma tarefa difícil te comentar.



    Porque aquele espantalho está pousado em meus olhos, e está morto de curiosidade para saber o que se passa dentro deles. E disse que não vai sair até eu contar. Porque minhas asas quebradas varrem o chão e estão cobertas do que parece um manto de terra. Porque eu era vôo. E agora virei pouso. E aterriso sempre que tenho fome. Não repare minhas asas estraçalhadas, nem esse sorriso gasto. Só tire o véu da minha consciência e me toque para ver se reajo.


    Quero acreditar que ainda estou viva.
    E que você está aqui para me possibilitar.


    Você, como sempre,

    Devastadora.



    Te abraço com amor.

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  7. Esse não trouxe alegria ou sorriso. Desse só fiquei com um amargor na boca. Deve ser a certeza da passagem necessária e desconhecida que fazemos dos modos mais diferentes. Todos constrangedores, desconcertantes. Manter por perto a idéia de que tudo é passageiro cai muito bem, mas nunca vi o acontecimento da coisa combinar com nada.

    Te acompanho sempre amiga,
    Beijos,
    Elis

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  8. O assombro da cena se daria tanto num texto jornalístico como num filme. Então, o que sobra aqui é literatura. Boa.

    Bjo

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Mudo! Assim eu fiquei ao ler "Sem Açucar".

    Teus textos são harmonia, minúcia e impacto.
    É bom de ler!

    Percebo que brinca com as palavras, frases e períodos.

    Teu prazer de escrever é o meu de ler.

    Parabéns!
    Bj

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  11. É gratificante encontrar boas leituras quando não as estamos procurando.

    Parabéns!!

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  12. Onde é a fábrica?


    Só agora noto quanto tempo perdi entre a primeira vez (de muitas) que Elis me disse "Lê a Robertinha!", e eu sempre esqueci; como sempre esqueço de ver o filme preferido dela (da primeira) para podermos trocar impressões. E é só mesmo esquecimento, nada mais. Minto: descuido que leva ao erro e à burrice.

    O texto inteiro paira à frente da tela - como holograma - por conta de sua precisão. Uma vez (e uma foi suficiente), meu mentor me disse "Você tem que ser obsessivo!". Se você não é obsessiva com a escrita, Roberta, significa que já está em nível ainda mais avançado, já não precisa mais.

    Como se não bastasse, usou o santo nome da maneira mais apropriada que já presenciei. Jamais havia visto alguém utilizar Clarice com tanta autoridade e isenção de devotismos melosos, além do melhor e mais difícil: sem comprometer a fonte ou o recipiente. Ou ainda, ambos.


    Mas retorno à pergunta. Onde é a fábrica? Elis... você... Onde é que fazem escritoras assim?

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