quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Exame Final


Pelo retângulo de vidro da porta do anfiteatro, via-se, em primeiro plano, as costas de Idalina, como se tivesse recuado excessivamente, acossada pelo crivo inquisidor da comissão julgadora. A banca, em semicírculo diante dela, disposta em atitude hostil com a atenção predadora de uma matilha. De que a julgavam, afinal?


Lina fizera versos. Desfiava-os desde pequena. Corria-lhe a mão veloz sobre a pauta do caderno no encalço do fugidio pensamento. A pauta – amparo. A pauta anteparo da escrita solta, esferográfica. Quando acabava um texto, seguia as linhas de trás para frente com os dedos e os dedos só, olhos fechados, perscrutando a trilha.


Por onde diabos se mete sentido palavra adentro? Espantava-se a cada vez. Mesmo porque a coisa, não raro, tomava rumos bem diversos do que pretendia: Lina sentava-se, muito concentrada, para repassar o ponto da última aula e eis que sentia troar em si, qual um estouro de cavalaria, palavras em plena fuga, pisando os cascos selvagens contra a linearidade da pauta. Em lugar da lição, o poema. Lina, atônita, sem ter como explicar-se aos professores.


Então lhe disseram que não estava bem escrever assim. Aquilo não tinha nada de produtivo. A menos, claro, que Lina estudasse as técnicas e os meios e as formas e os gêneros e os artifícios de se domar, disciplinar, profissionalizar, lapidar, polir, lustrar, subjugar a palavra ao gênio e oportunidade de seu autor. Não mais o jorro confessional, mas a perícia.


A palavra exigia, portanto, aproximação cautelosa. Pelo menos ao que parecia, não fosse certo que o curso que lhe indicaram sugeria fragmentar a palavra à sua unidade gráfica elementar, sua fração mínima, indivisível. E foi assim que Idalina formou-se em Letras. Letras! Juntá-las todas, ao longo de quatro anos, em intermináveis ensaios, citar fontes, digerir primeiro o pensamento dos outros, o texto dos outros, para, só então, elaborar o seu. E fazer valer a assinatura aposta ao pé da página.


O processo começava, portanto, por parecer-se. Primeiramente, havia que se imitar, transformando; que se plagiar, inovando e, pouco a pouco, pela via da decantação, perceber o que era efetivamente seu no que escrevia e o que não podia ser atribuído a mais ninguém. Só assim se firmaria nela a voz própria, autoral, até que, por fim, se lhe reconhecesse um estilo.


Sem dúvida, beneficiara-se imensamente do aprendizado. Lina empenhou-se laboriosa no estudo das técnicas de composição. Aprendeu truques e trunfos, potencializando a alquimia de seus textos. Escrevia como poucos. Cedo, empregou-se em uma pequena editora, fazendo resenhas de livros e algumas traduções. À sua maneira, tentava construir uma ponte entre o mundo da palavra sonhada – libérrima! - e o mundo da palavra possível - funcionária. Ou seria o mundo funcional e possível das palavras?


Mas agora estava ali, no dia do exame final, de costas para a porta, com o anfiteatro em semicírculo à sua frente. Ouvia-se o silêncio como um enxame de pensamentos, devorando-lhe em zumbido os lábios hirtos. Alguém da banca impacientou-se, lembrando-lhe de que não tinham todo o dia. Lina calava mais.


O examinador repetiu-lhe a pergunta, que se perdeu no ar antes de lhe chegar ao entendimento. Lina recuou mais. Tocava quase o trinco com a sobra da camisa. Lembrou-se de um verso sem propósito, como os que lhe tomavam o lugar das lições no antigo caderno. Murmurou-o baixo, a ponto apenas de lhe notarem a voz, trazendo mais confusão à já desnorteada audiência.


Secretamente, porém, sua tese se confirmava. As palavras não se deixam domar jamais. Os examinadores entreolhavam-se perplexos, perguntando uns aos outros, intrigados: mas o que é que ela está dizendo, afinal? Parece que vai dizer alguma coisa! Lina com os olhos brancos, revirados, entoava o tropel ininteligível das palavras em fuga.



5 comentários:

  1. Caramba!!Que coisa forte e bonita, lógico pra mim, a genial Lina nao sei como descreveria tal situaçao!!

    Parabnes pelo magnifico texto!!!!

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  2. Que texto sensacional. O que me fugiram não foram nem as palavras, mas o próprio fôlego.

    Beijos, Kk

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  3. A imagem é simplesmente perfeita!!! Muito, muito bom!!!

    O texto, já o tinha sentido, agora foi só relaxar e deixar ele me levar embora!

    Beijos,
    Elis

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  4. Hummmm! Será que essa Lina é você? Lindo! Adorei.

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  5. Lendo de novo. Para cada leitura, um olhar. E Lina mais bela.

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