domingo, 9 de agosto de 2009

Lembrando meu Pai



"Seguros como a mão do papai!" – dizia-nos sempre ao conduzir-nos pela travessia da rua, sobre o riscado da faixa. Com a outra mão, reforçava aos carros a ordem de parar, porque ali cruzavam o pai e a alegria, tomando-lhe de impulso o braço estendido como a um balanço, para saltar as intermitências da cor no asfalto.

Quando pequenas, não lhe percebíamos o tremor constante, não o das mãos que, à época, ofereciam-se firmes, mas esse outro que o tem acompanhado a vida inteira, um frêmito de animal posto a correr, afugentado. Fosse um cãozinho, seria dos que se aproximam a medo, encolhendo a cabeça aos afagos, nunca, porém, o cão de guarda por que lhe tomávamos na inconsciência da idade. No entanto, jamais se furtou a cumprir o papel que lhe era atribuído no micro-cosmo de conservação da espécie, protegendo-nos como podia por trás do coração vacilante.

Talvez cansado de ser menino grande é que gostasse, às vezes, de andar, curvando-se, mimetizado ao nosso tamanho. Nós, em nome do jogo, curvávamo-nos também, deixando-o, de novo, grande, com suas codorninhas a segui-lo pelos cômodos.

O homem da casa em sua solidão de mulheres. Cercado por três irmãs. E, em seguida, três filhas. A esposa para quem não raro perde o timbre das decisões, mesmo tendo voz de locutor, acostumada a fazer-se ouvir, indeciso entre ser manso e ser passivo - esta difícil medida. Pâpâiê: dizia-lhe criança em circunflexos, para imitar-lhe os graves da voz. Da voz impostada à voz deposta, optou por tomar parte através do silêncio.

E tem os olhos grandes, meu pai. Olhar comprido de menino deixado de fora da brincadeira. Certa vez, em uma de nossas viagens, dessas em que tentamos reunir as cinco pontas da família em torno da palma de um momento, calhou de chegarmos à cidadezinha em dia de quermesse e festa. Na praça histórica, a vaca feita de retalhos de papel e pano, soltava fogos pelos chifres, na algazarra de risos em que se parecem todas as línguas. Nós, filhas adultas, ríamos alto, queríamos, por travessura, andar no trenzinho da praça. O pai topou a brincadeira, sentou-se à janela, comportado, mas com o sorriso largo de quem sente vento no rosto. Minha irmã e eu sublinhamos com a troca cúmplice de olhares sua alegria sem jeito. Ao surpreender-se observado, corou, inseguro, por timidez de ser feliz. Assentimos com os olhos que sim, que aproveitasse o passeio. Encorajado, virou-se, mal cabendo em si, para a multidão de matizes, ousando um aceno anônimo para outro menino risonho que de fora o assistia.

Quando é que trocamos, pai, a posição das mãos entre o que leva e o que se deixa levar?

Comove-me vê-lo no saguão do aeroporto, aguardando insciente, bagagem na mão, que lhe diga, afinal, qual será o portão de embarque. Converso em inglês com o funcionário da companhia, língua que meu pai, tendo-me proporcionado o aprendizado, ele mesmo não entende bem.

E ele me segue, confiante, quando lhe digo que é por aqui. Faço-o correr, mais rápido do que lhe obedecem as pernas, digo-lhe que, desse jeito, vamos perder o vôo. Mas não o ponho no colo como faria a mim, para dar-me a certeza de que tudo ficaria bem.

Voamos juntos para destinos diversos. Seu mundo crescido à força de nós, filhas ciganas. Percebo que ele está ansioso e que, como todo bom adulto, constrói seu disfarce de controle. Seus grandes olhos me doem. Tenho ímpeto de abraçá-lo, irmanada ao que nele há de frágil existência. Quero emprestar-lhe a segurança possível, lembrar-lhe, paizinho, que, sim, é grande como todo homem (des)feito.

Pernoita em minha casa antes de seguir viagem – ele, agora, o visitante. Saímos para jantar, pela cidade que não é sua, pelo bairro que não é seu. Agora, sou eu que aponto os caminhos. Vamos conversando, escavando coisas. Memórias recentes e memórias remotas, suas preferidas. Conta-me do dia em que me trouxe a bonequinha preta; de quando levou-nos a Garanhuns para conhecer sua cidade natal, juntando rosto a alguns personagens de suas narrativas mirabolantes. Estou atenta como a menininha que fui, sentada em seu colo. Escuto-o com fascínio. Sempre gostei de ouvi-lo contar histórias.

Crescido em seu papel de pai, paga-me um sorvete, por gosto de prover, retomando-se, tirando a cédula meticulosamente dobrada do vão do bolso. E limpa-me o canto da boca com a ponta branca de um guardanapo, num gesto antigo de cuidar de mim.

5 comentários:

  1. Seu texto é um carinho para todo o pai e todo filho. Obrigada por dar-me esse presente no dia de hoje.

    Beijos, Kk

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  2. Irminha,
    me orgulho do seu dom de buscar a "palavra em fuga", encontra-la no recanto mais escondido e expor o que ja sentiamos mas nao sabiamos ou ousavamos expressar.
    Ao esculpir nosso pai me trouxeste doces lembrancas e logicamente no na garganta.
    Te amo!

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  3. Leva-me as lagrimas! E amor que quase nao cabe dentro da gente...

    Beijos amiga!

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  4. Conseguiu transmitir o que a gente sente e fica engasgado como lembrança, ainda mais num dia como esse... parabéns!!

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  5. Emocionante! Lendo seu texto parecia estar vendo aqueles dias que passamos em Pentecostes. Como você retrata bem com as palavras.
    Parabéns.

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