domingo, 30 de agosto de 2009

Desobediência


    Alerta aos banhistas de Boa Viagem: não se deve ultrapassar os arrecifes. Circunscrita na clausura de arenito a porção de mar que nos cabia. E assim, delimitados, tínhamos nossa experiência do mar, que era, apesar de tudo, fresca e boa.

    Tal é a inteireza do mar que um seu recorte guarda em si as propriedades do manto inteiro, vastíssimo, a cobrir em dobras de transparência nossa nudez de meninos.

    Do outro lado era o excesso, a diluição, o ilimitado, onde todas as linhas se decompunham em horizonte, como os corpos dos afogados. Se a curiosidade nos levava a subir os arrecifes para espreitar o mar além , voltávamos pálidos de susto, joelhos e mãos sangrando pela rasteira educativa de uma onda traiçoeira. O sal levava segundos para aderir às ranhuras e ardia, então, sem piedade, tornando em espinhos de culpa as unhas da sonhada sereia.

    O pai olhava-nos severo os joelhos esfolados, mas não ralhava, sabendo-nos sob o jugo de uma maior, mais pesada autoridade. Seu acolhimento doía-nos, tecido áspero de camisa roçando-nos sobre a chaga fresca.

4 comentários:

  1. Nossa Betinha, que maravilhoso esse texto, mais enxuto sim, e mais arrebatador.

    Quem pede socorro agora sou eu.

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  2. Digamos que essa é uma desobediência boa, com sabor de vida, como muitas. Que possamos atravessar os limites dos arrecifes e aprender, com o mar e a natureza, a vagarosidade necessária para crescer e maturar. Grande beijo!

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  3. Se faça ouvir, aonde quer que seja o seu esconderijo, mesmo que seja do lado de lá do Atlântico, ou do Oceano Índico!

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