segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cegueira em Cor

Já o verão se impunha com sua luminosidade totalizante, que mal admite gradações. Passavam as pessoas apressadas, franzindo a testa, retorcendo as sobrancelhas ora a um lado, ora a outro, improvisando toldos para os olhos, em incômoda fotometria. Fosse como fosse, o movimento era de apequenar os olhos e não o de os escancarar, como aquele do senhor que me andava de encontro. Vinha eu, como quase sempre, de cabeça baixa, não apenas para me inteirar das irregularidades do passeio, ou para escapar ao assédio inoportuno da claridade. Na verdade, ia-me metida por dentro, tanto quanto podia, fiando-me, involuntária, pela seta resoluta dos sapatos finos, que me levavam de volta ao tedioso expediente.



Assim foi que, ao buscar a baqueta por trás da discreta percussão, vi-lhe primeiro a extremidade tateante da bengala no intervalo resvalante dos pés: tec tac tec. É um cego, concluí, levantando distraidamente a cabeça, no que se tornou central o objeto de minha visão, até então periférica. Foi quando dei pela expressão do homem, arregalando os olhos de opacas íris em minha direção, como fazemos nós, os de visão plena, para recobrar no escuro a acuidade dos contornos.


Talvez não fosse inteiramente cego, embora tivesse as órbitas de quase indistinto branco. Este homem carrega sua própria noite, foi o que pensei, sem mesmo dar pela metáfora, ao vê-lo estagnar, em plena, em excessiva claridade, como diante de um obstáculo invencível. Deve ser terrível ver o mundo em contra-luz, as coisas sendo percebidas como focos mais intensos de sombra dentro de uma moldura maior de escuridão. O homem girava a cabeça, como a buscar em torno de si alguma coisa ou alguém.


- A senhora está aí?

Interpelou. Seria a mim? Correu a vista vaga pelo vazio ao meu lado. Eu estava mais à direita. Então é que me dei conta de que, como eu havia estancado o passo, tornei-me para si, subitamente, invisível. Deve ser estranho ter as pessoas a desaparecerem para dentro do silêncio... Desta vez, consciente da metáfora, dei-me conta de que o fenômeno nos acontece aos videntes, em diferente grau...



O homem se acercou de mim. Suas pálpebras se desarquearam um pouco. Podia-se dizer que sentia a variação benfazeja de um milésimo de centígrado ocasionada por minha exígua sombra . Era pouco mais de duas da tarde, hora em que as sombras não nos caem longe do corpo. Aspirou o ar com violência, guiando-se por um novo estímulo, já que não tinha mais o fio condutor do salto soando contra o concreto. Fiquei estática como quando me vinham farejar na infância os cães das casas vizinhas.


- A senhora está aí?


Seria agora vexatório responder. Como explicar porque não respondera da primeira vez? Alguns passantes desaceleraram a marcha por curiosidade. Duas amigas olharam-se, desentendendo, seguindo em frente com fisionomia contrariada, ao concluírem, ao que tudo indica, que eu decerto fazia mofa ao deficiente.


Um rapazinho, vendo-me a imobilidade e o andrajoso homem tão rente a mim, perguntou-me, com os olhos, se estaria metida em apuros e se acaso poderia ser de alguma serventia. Fiz que não, sem me mover. Senti-me desleal, dizendo tanto com os olhos, enquanto me mantinha oculta ao cego sob a cortina da imobilidade.


Um ônibus que cruzava com estrépito varreu-lhe em cheio contra as narinas ávidas o meu perfume. O cego sorriu como se tivesse desvendado uma charada.

"Eu sabia. A senhora cheira a vermelho. O vermelho cai-lhe bem". Afastou-se sem mais, a bengala abrindo-lhe incerto caminho - tec tac tec - pela rua.


Foi como se me levasse de assalto a sanidade dos sentidos. De que me adiantava tê-los plenamente funcionais e, no entanto, incapazes de transcendência e poesia? Olhei acintosamente o sol, oferecendo-lhe à radiação causticante a crispação das retinas. Invejava-lhe, quase, a cegueira, pela recomposição misteriosa dos outros sentidos que lhe supriam a falta.

Queria, naquele momento, ter eu também o nariz capaz de aspirar matizes! Não resistindo ao incêndio de luz, cerraram-se-me os olhos, enrugando-se com força. O céu desapareceu vermelho por trás da irrigação das pálpebras. Sim, era tudo vermelho, cor de incandescências. Meu sangue e meu vestido. Minha chama e o manto da tarde. Era tudo, então, vermelho como o céu.

6 comentários:

  1. Uau! Muito bom!
    Eu trabalho perto do Benjamin Constant, passo por momentos constrangedores assim com certa frequência, isso de não saber reagir ao fato de ser invisível.

    Obrigado pelo elogio no Trema, vou conferir esse teu espaço aqui sempre que puder que você manda bem!

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  2. Maravilhoso seu texto! D sensibilidade incomum e belo lirismo! !.000 vezes parabéns! OBS.: e valeu pela visita lá no Pictorescos

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  3. Você, sim, tem olhos para ver. Os olhos da alma.

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  4. Uma escritora e tanto! Desde criança. Coloca no blog aqueles textos que escreveu na infância. Gostaria muito de revê-los. Parabéns! Você vai muuuuito longe.
    Beijos da Tia Gilza

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  5. Anseio pelas tuas palavras que curam. Talvez as tuas sim, aplaquem algumas urgências do meu coração. Você me sabe.

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